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domingo, 26 de junho de 2011

Somente Tu...

Somente tu...

A fé do animador vocacional nunca deve se abater diante do reduzido número de vocacionados, pois Deus chama quem ele quer e o segue quem de fato se compromete com Cristo


Encontramo-nos em uma grande paróquia, no começo da missa de domingo, com o padre já no altar e com a presença de vários fiéis. De repente entram na Igreja dois homens com roupa  escura, encapuzados, armados. Dois terroristas, talvez kamikazes, daqueles que não pensam duas vezes para explodir uma bomba e ao mesmo tempo serem jogados no ar com outras pessoas. Um dos dois começa a gritar: “Quem está disposto a receber uma bala por amor de Cristo? Afinal, quem acredita nele fique no lugar onde está. Os outros saiam da Igreja!”. Ninguém quer ouvir aquela proposta uma segunda vez. Devido ao pânico, a maior parte dos fiéis sai correndo. Daquele grande grupo de fiéis (?) permanecem na Igreja somente umas vinte pessoas crentes, cada um rezando para a sua alma. O homem que gritou, tira o capuz, olha para o padre imóvel no altar (talvez se tivesse sido possível ele também teria logo fugido) e diz: “Muito bem! Libertei o senhor de todos os hipócritas. Agora pode iniciar sua missa. Adeus”. E com muita calma os dois homens saem da Igreja. Inacreditável, não é? Mas a história, criada pela imaginação, quer somente fazer uma reflexão a respeito da hipocrisia de uma determinada maneira de crer, de participar da liturgia, da oração, do testemunho da própria fé e, talvez, do trabalho de um animador da juventude. Você, que está lendo, o que teria feito?

“Não quereis também vós partir?”

Talvez nem seria necessário construir mais uma historinha: o próprio Jesus, no evangelho, não ficou com medo de encontrar- se sozinho, com poucos seguidores. Aliás, quando fez aquele discurso estranho a respeito do pão da vida, e viu muitos dos seus discípulos o abandonarem, com um tom perigosamente provocatório desafiou Pedro e os demais apóstolos a irem também eles embora. Pois bem, nos dias atuais ninguém nos mataria com uma bala porque acreditamos em Cristo - pelo menos em nossa sociedade ocidental. Mas é esta a perseguição sutil e rastejante dos nossos dias: a sensação, algo até desesperador, de sermos poucos e insignificantes, como se fôssemos impotentes diante de uma cultura que nos contraria. E assim surge a tentação da incoerência: diminuir os questionamentos e a responsabilidade, gostar da opressão.  Com certeza, Jesus não fez isso. 

“A quem iremos?”

Um animador vocacional  interpreta os dois papéis: é como um mestre (com seus  vocacionados) e, ao mesmo tempo, é um discípulo (em relação a Jesus). Se quiser fazer bem o primeiro papel, deve fazer bem também o segundo, isto é, ser um bom discípulo. Assim como foi Pedro. Ele  decidiu seguir o Mestre, não porque “compreendeu” o discurso a respeito do pão da vida, e nem porque Jesus multiplicou os pães, mas porque esse Mestre é único. Ao invés dele acolher a ambígua, mas atraente, aclamação do povo saciado, começa a dizer coisas difíceis e duras, que tornam possível aquele questionamento. Jesus não é como outros mestres, que fazem milagres
sensacionais junto aos seus (para ter audiência) e depois pronunciam palavras banais e sem valor, sem nenhum apego à vida eterna, sem o respiro do mistério, sem a força de acabar com a hipocrisia. No Mestre Jesus há algo diferente e novo, que satisfaz e inquieta, que doa e pede o máximo. E Pedro, o pescador, entende que somente seguindo esse homem poderá descobrir e realizar a si mesmo. Não sabe como, mas percebe que é desta forma... 

“Somente tu tens palavras de vida eterna...”

Como é bela a expressão: “Somente tu”! Significa a unicidade e a singularidade absoluta do Verbo feito homem. Somente Jesus - é a intuição de Pedro -, poderá dizer a verdade e manifestar o mistério.  Não é a única vez no evangelho que aparece esta expressão em seu significado mais profundo. No episódio dos guardas que foram enviados para capturar Jesus, eles ficaram encantados, ouvindo-o, porque, como afirmaram: “Nunca alguém falou como esse homem” (Jo 7,46). Também neste caso notamos tratar-se de pessoas simples, mas que sabem captar de imediato a palavra que responde às exigências profundas do coração humano.
Jesus encanta com suas palavras de vida eterna, não porque fala da vida futura, mas porque o que ele diz nasce do amor e contém vida. E um ato de amor verdadeiro, de  fato, é para sempre, dura eternamente. Dizer a uma pessoa: “Eu te quero bem”, é como lhe dizer: “Não vais morrer”. É palavra de vida eterna! Palavra forte, definitiva, que fixa a dignidade do “tu” de modo irrevogável e torna inútil cada referência aos outros, a outras palavras, a outros messias. Assim “fala” Jesus. E por isso a pessoa o segue, devido a essa sede de eternidade satisfeita. E se o Cristo é experimentado como o único que possui as palavras de vida, então o seguimento comporta uma certa solidão. É como duas solidões, em parâmetros diferentes, que se procuram, criando um relacionamento mais forte do que a morte. 

“...e nós acreditamos”

A fé possui uma dimensão naturalmente comunitária, mas é um gesto e uma decisão da pessoa em particular. Esta é a fé que se deve compartilhar e fazer crescer em cada um dos vocacionados e vocacionadas. Assim nasce o grupo, não o contrário, mesmo sabendo que a participação grupal pode ajudar o caminho da pessoa particular que crê. É importante prestar atenção para que o grupo paroquial não viva em função das necessidades psicológicas de seus membros. Uma espécie de grupo “pronto socorro psicológico”, no qual cada um deve necessariamente agradar ao outro, e onde alguns “corações solitários” parecem estar
em perene procura da alma gêmea (isto é, de si mesmo, na realidade). Ou o grupo paroquial se transforme em um mix, ou seja, um ponto de encontro (agradável aos pais) entre a danceteria e a sombra da igreja, onde a diversão evita determinados excessos... A fé não pode tornar-se um calmante para jovens de famílias tradicionais, e nem o grupo virar uma manada em que se perde a individualidade e a coragem de escolher, no qual uma pessoa pensa por todos e ninguém mais corre o risco de acreditar. Onde todos fugiriam diante da perspectiva do martírio, ou do testemunho radical e forte frente a uma cultura hostil. Então, o animador da juventude deve ter a coragem de derrubar a hipocrisia, como os dois homens encapuzados da historinha relatada no início do texto, mas sem nenhuma máscara, pelo contrário, mostrando no rosto a alegria de quem segue a Jesus Cristo, o único que tem palavras de vida, da vida plena e para sempre! Mesmo quando há um preço a ser pago, que não será nunca totalmente quitado... 

Revista Rogate—Junho/Julho de 2010. pp.30

sábado, 28 de maio de 2011

Encontro Vocacional com Crianças

Encontro Vocacional com Crianças

A paróquia Jesus Cristo Libertador está realizando um mês vocacional em preparação à odenação do diácono Ronaldo Temóteo. Celebrações, missas, palestras, encontros com jovens e crianças tem movimentado a paróquia, que tem recebido a visita e ajuda dos seminaristas e diáconos da Arquidiocese.
No domingo, 22 de maio, cerca de 60 catequizandos participaram do encontro vocacional para crianças, realizado na comunidade Dom Oscar Romero. O encontro contou com o apoio do seminarista Sávio da Glória, do aluno do curso de Filosofia da Arquidiocese e com a ajuda do seminarista Amauri Thomazzi, do curso de teologia.
Dinâmicas, animação, música e formação acompanharam todo o encontro que terminou com a oração e bênção final do Padre André Bordignon.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Retiro par Agentes de Pastoral

Retiro para Agentes de Pastoral


O Conselho de Leigos da Arquidiocese, juntamente com a Pastoral Vocacional e a Área Vocações, promoverão, no próximo dia 28 de maio, um retiro para leigos / agentes de pastoral no colégio Notre Dame, [Rua Egberto Ferreira de Arruda Camargo, 151 – Notre Dame/Campinas]. O Retiro contará com a assessoria de Dom Antonio Celso Queirós, Bispo emérito da diocese de Catanduva, São Paulo.

Sabemos que, nas atuais circunstâncias, retirar-se para rezar à luz da palavra de Deus, é quase impossível; contudo nunca foi tão emergente e necessário o incentivo à vida espiritual, principalmente dos agentes de pastoral das nossas paróquias. Pedimos, portanto, que cada paróquia, organismo e pastoral envie pessoas para este momento de espiritualidade, a fim de que, posteriormente, auxiliem os demais.

O Retiro terá início às 8h e término às 17h30, e a alimentação será oferecida no local. Pedimos aos padres, agentes de Pastoral e seminaristas o empenho na divulgação e animação do encontro.

Será necessário confirmar presença para a preparação dos alimentos.






domingo, 17 de abril de 2011

Workshop Vocacional

Workshop Vocacional

No ultimo dia 10 de abril, a Pastoral Vocacional diocesana promoveu um encontro de formação para agentes vocacionais. Cerca de 60 pessoas participaram da formação , que contou com a assessoria do padre José Eduardo Meschiatti e da Irmã Eleanor. Na parte da manhã, todos participaram da Missa, presidida pelo padre José Eduardo e concelebrada pelo padre Romilson, sacerdote paulino que também participou do “Workshop”, em seguida, a irmã Eleanor conduziu o encontro a fim de analisar a realidade das Equipes Vocacionais Paroquiais (EVPs) na Arquidiocese de Campinas e apontar diretrizes básicas de um Animador Vocacional.
Na segunda parte do encontro, Padre José Eduardo indicou, de forma prática, como montar, manter e animar uma EVP. Alertou também sobre a importância das paróquias manterem estas equipes. “ o Animador vocacional é aquela pessoa que vive sua espiritualidade, participa ativamente da comunidade e não tem medo de ousar no campo vocacional”, apontou o padre José Eduardo, assessor diocesano da Pastoral Vocacional.

Para ver as fotos do encontro, clique com o botão direito do seu mouse e selecione a opção "abrir em nova janela" no seguinte endereço:  http://www.flickr.com/photos/pvcampinas

sábado, 26 de março de 2011

Geração Y’ deve ter atenção especial dos animadores vocacionais






'Geração Y’ deve ter atenção especial dos animadores vocacionais

O Serviço Pastoral Vocacional (PV), deve dar uma atenção especial aos jovens que vivem no mundo das novas tecnologias da comunicação, adaptando sua linguagem e criando novos métodos. Esta é a opinião que o ex-secretário executivo do Departamento das Vocações e Ministérios do Conselho Episcopal Latino-americano (Celam), padre Gilson Maia, defendeu hoje, 26, na 33ª assembleia de animação Vocacional, realizada em Aparecida/SP.

O Serviço de Animação Vocacional (SAV) deve oferecer uma atenção especial à ‘Geração Y’, caracterizada pelo uso de avançadas tecnologias de comunicação com novas formas de relações, valores e conceitos. O SAV deve adequar-se às novas linguagens, elaborar novos métodos e usar as modernas tecnologias em vida da evangelização vocacional das novas ‘tribos”, disse padre Gilson.
O religioso insistiu que toda pessoa batizada deve ser um missionário e que o trabalho de animação vocacional não é exclusivo do SAV. “O serviço na messe não é tarefa exclusiva dos animadores do SAV/PV. A missão é um dom precioso do Senhor, levada adiante por todos os vocacionados e vocacionadas. Neste sentido torna-se fundamental estreitar vínculos e incrementar as relações com os serviços de evangelização presentes na Igreja”, disse.
“Todo discípulo tem DNA missionário. Um discípulo que não missionário, é falso discípulo. Ninguém é missionário sem antes a experiência do discipulado”, acrescentou o padre.
Padre Gilson apontou pelo menos três características que devem marcar o perfil do animador vocacional. A primeira delas é a espiritualidade. “A espiritualidade é a raiz que sustenta e fortalece todos na missão evangelizadora vocacional. A identidade eclesial do SAV/PV é garantida pela fé, fortalecida diariamente pela vida sacramental, testemunhada no meio do povo de Deus e partilhada com a comunidade eclesial”.
Segundo o religioso, a formação também deve caracterizar os que trabalham na animação vocacional. “A formação dos discípulos missionários deve ser integral e permanente”, esclarece padre Gilson.
Outro ponto que, de acordo com o padre, deve marcar a prática dos animadores vocacionais é o planejamento. “O SAV/PV exige articulação e organicidade para que a missão vocacional possa integrar as diferentes forças evangelizadoras presentes nas comunidades”. Para o religioso, juventude, escola, família, catequese devem merecer atenção especial no planejamento do SAV.

domingo, 13 de março de 2011

Teologia das vocações

No texto ‘Teologia das vocações, João Batista Libânio aborda três concepções de salvação, modificadas a partir dos séculos. A primeira é que a salvação se dá a partir da Igreja: “Nesse período, a Igreja entendeu que a salvação é algo que possuímos de antemão e, de posse dela, a levamos aos outros. A salvação não está na realidade, o missionário é quem vai levá-la”; em seguida, com o surgimento dos pensamentos modernos, a salvação passou a ser considerada como anexa à pessoa: “nessa linha personalista, a salvação não se dá apenas pela pertença a uma Igreja, porque Deus está presente também na pessoa, criando-a e recriando-a constantemente para a comunhão”; a terceira ideia de salvação é aquela que se dá na transformação da realidade: “pela missão, transformamos a realidade e fazemos da salvação que está na pessoa, um convite à salvação alheia”.
No entanto, com o avanço da pós-modernidade e da cultura antropocêntrica, a salvação passou a ser desconsiderada. Há um grande desânimo nas pessoas, pois o momento atual revela que houve um cansaço, uma desilusão com o compromisso social porque as lutas sociais não surtiram o efeito que se esperava.
O presente tornou-se o centro. O passado não importa, já foi. O futuro não se sabe, então, importa viver o presente. É o “Carpe Diem” (viva o hoje), é o pensamento presentista, a festa da vida, dos “happy hour” de fim de tarde, das “baladas”.
E agora, como anunciar que “fora da Igreja não há salvação”, “na pessoa está a salvação” e “ na realidade está a salvação”? O presentismo é o corrosivo maior das concepções de salvação, embora seja positivo em alguns aspectos. Este presentismo tem uma força corrosiva muito grande, porque só interessa o prazer, o aqui e agora. Todo o resto gira em torno disso. Daí a negação radical da proposta cristã, porque no cristianismo se vive para o outro, e o presentismo coloca o eu no centro.
O principal ‘público’ a contrair o presentismo é a juventude. Seja pela falta de referências, seja pelo excesso de informações. Os jovens estão entrando num presentismo tão forte – subsidiado pelas drogas – pois necessitam estar bem logo, fugir momentaneamente dos problemas e das interrogações que pairam suas mentes. Tentam, numa fração de segundos, fugir de si mesmos [...].
Texto adaptado da revista tribuna, do mês de dezembro de 2010,
 Padre José Eduardo Meschiatti.

quinta-feira, 10 de março de 2011

CARTA DO PAPA BENTO XVI
AOS SEMINARISTAS



Queridos Seminaristas,

Em Dezembro de 1944, quando fui chamado para o serviço militar, o comandante de companhia perguntou a cada um de nós a profissão que sonhava ter no futuro. Respondi que queria tornar-me sacerdote católico. O subtenente replicou: Nesse caso, convém-lhe procurar outra coisa qualquer; na nova Alemanha, já não há necessidade de padres. Eu sabia que esta «nova Alemanha» estava já no fim e que, depois das enormes devastações causadas por aquela loucura no país, mais do que nunca haveria necessidade de sacerdotes. Hoje, a situação é completamente diversa; porém de vários modos, mesmo em nossos dias, muitos pensam que o sacerdócio católico não seja uma «profissão» do futuro, antes pertenceria já ao passado. Contrariando tais objecções e opiniões, vós, queridos amigos, decidistes-vos a entrar no Seminário, encaminhando-vos assim para o ministério sacerdotal na Igreja Católica. E fizestes bem, porque os homens sempre terão necessidade de Deus – mesmo na época do predomínio da técnica no mundo e da globalização –, do Deus que Se mostrou a nós em Jesus Cristo e nos reúne na Igreja universal, para aprender, com Ele e por meio d’Ele, a verdadeira vida e manter presentes e tornar eficazes os critérios da verdadeira humanidade. Sempre que o homem deixa de ter a noção de Deus, a vida torna-se vazia; tudo é insuficiente. Depois o homem busca refúgio na alienação ou na violência, ameaça esta que recai cada vez mais sobre a própria juventude. Deus vive; criou cada um de nós e, por conseguinte, conhece a todos. É tão grande que tem tempo para as nossas coisas mais insignificantes: «Até os cabelos da vossa cabeça estão contados». Deus vive, e precisa de homens que vivam para Ele e O levem aos outros. Sim, tem sentido tornar-se sacerdote: o mundo tem necessidade de sacerdotes, de pastores hoje, amanhã e sempre enquanto existir.

O Seminário é uma comunidade que caminha para o serviço sacerdotal. Nestas palavras, disse já algo de muito importante: uma pessoa não se torna sacerdote, sozinha. É necessária a «comunidade dos discípulos», o conjunto daqueles que querem servir a Igreja de todos. Com esta carta, quero evidenciar – olhando retrospectivamente também para o meu tempo de Seminário – alguns elementos importantes para o vosso caminho a fazer nestes anos.

1. Quem quer tornar-se sacerdote, deve ser sobretudo um «homem de Deus», como o apresenta São Paulo (1 Tm 6, 11). Para nós, Deus não é uma hipótese remota, não é um desconhecido que se retirou depois do «big-bang». Deus mostrou-Se em Jesus Cristo. No rosto de Jesus Cristo, vemos o rosto de Deus. Nas suas palavras, ouvimos o próprio Deus a falar connosco. Por isso, o elemento mais importante no caminho para o sacerdócio e ao longo de toda a vida sacerdotal é a relação pessoal com Deus em Jesus Cristo. O sacerdote não é o administrador de uma associação qualquer, cujo número de membros se procura manter e aumentar. É o mensageiro de Deus no meio dos homens; quer conduzir a Deus, e assim fazer crescer também a verdadeira comunhão dos homens entre si. Por isso, queridos amigos, é muito importante aprenderdes a viver em permanente contacto com Deus. Quando o Senhor fala de «orar sempre», naturalmente não pede para estarmos continuamente a rezar por palavras, mas para conservarmos sempre o contacto interior com Deus. Exercitar-se neste contacto é o sentido da nossa oração. Por isso, é importante que o dia comece e acabe com a oração; que escutemos Deus na leitura da Sagrada Escritura; que Lhe digamos os nossos desejos e as nossas esperanças, as nossas alegrias e sofrimentos, os nossos erros e o nosso agradecimento por cada coisa bela e boa, e que deste modo sempre O tenhamos diante dos nossos olhos como ponto de referência da nossa vida. Assim tornamo-nos sensíveis aos nossos erros e aprendemos a trabalhar para nos melhorarmos; mas tornamo-nos sensíveis também a tudo o que de belo e bom recebemos habitualmente cada dia, e assim cresce a gratidão. E, com a gratidão, cresce a alegria pelo facto de que Deus está perto de nós e podemos servi-Lo.

2. Para nós, Deus não é só uma palavra. Nos sacramentos, dá-Se pessoalmente a nós, através de elementos corporais. O centro da nossa relação com Deus e da configuração da nossa vida é a Eucaristia; celebrá-la com íntima participação e assim encontrar Cristo em pessoa deve ser o centro de todas as nossas jornadas. Para além do mais, São Cipriano interpretou a súplica do Evangelho «o pão nosso de cada dia nos dai hoje», dizendo que o pão «nosso», que, como cristãos, podemos receber na Igreja, é precisamente Jesus eucarístico. Por conseguinte, na referida súplica do Pai Nosso, pedimos que Ele nos conceda cada dia este pão «nosso»; que o mesmo seja sempre o alimento da nossa vida, que Cristo ressuscitado, que Se nos dá na Eucaristia, plasme verdadeiramente toda a nossa vida com o esplendor do seu amor divino. Para uma recta celebração eucarística, é necessário aprendermos também a conhecer, compreender e amar a liturgia da Igreja na sua forma concreta. Na liturgia, rezamos com os fiéis de todos os séculos; passado, presente e futuro encontram-se num único grande coro de oração. A partir do meu próprio caminho, posso afirmar que é entusiasmante aprender a compreender pouco a pouco como tudo isto foi crescendo, quanta experiência de fé há na estrutura da liturgia da Missa, quantas gerações a formaram rezando.

3. Importante é também o sacramento da Penitência. Ensina a olhar-me do ponto de vista de Deus e obriga-me a ser honesto comigo mesmo; leva-me à humildade. Uma vez o Cura d’Ars disse: Pensais que não tem sentido obter a absolvição hoje, sabendo entretanto que amanhã fareis de novo os mesmos pecados. Mas – assim disse ele – o próprio Deus neste momento esquece os vossos pecados de amanhã, para vos dar a sua graça hoje. Embora tenhamos de lutar continuamente contra os mesmos erros, é importante opor-se ao embrutecimento da alma, à indiferença que se resigna com o facto de sermos feitos assim. Na grata certeza de que Deus me perdoa sempre de novo, é importante continuar a caminhar, sem cair em escrúpulos mas também sem cair na indiferença, que já não me faria lutar pela santidade e o aperfeiçoamento. E, deixando-me perdoar, aprendo também a perdoar aos outros; reconhecendo a minha miséria, também me torno mais tolerante e compreensivo com as fraquezas do próximo.

4. Mantende em vós também a sensibilidade pela piedade popular, que, apesar de diversa em todas as culturas, é sempre também muito semelhante, porque, no fim de contas, o coração do homem é o mesmo. É certo que a piedade popular tende para a irracionalidade e, às vezes, talvez mesmo para a exterioridade. No entanto, excluí-la, é completamente errado. Através dela, a fé entrou no coração dos homens, tornou-se parte dos seus sentimentos, dos seus costumes, do seu sentir e viver comum. Por isso a piedade popular é um grande património da Igreja. A fé fez-se carne e sangue. Seguramente a piedade popular deve ser sempre purificada, referida ao centro, mas merece a nossa estima; de modo plenamente real, ela faz de nós mesmos «Povo de Deus».

5. O tempo no Seminário é também e sobretudo tempo de estudo. A fé cristã possui uma dimensão racional e intelectual, que lhe é essencial. Sem tal dimensão, a fé deixaria de ser ela mesma. Paulo fala de uma «norma da doutrina», à qual fomos entregues no Baptismo (Rm 6, 17). Todos vós conheceis a frase de São Pedro, considerada pelos teólogos medievais como a justificação para uma teologia elaborada racional e cientificamente: «Sempre prontos a responder (…) a todo aquele que vos perguntar “a razão” (logos) da vossa esperança» (1 Ped 3, 15). Adquirir a capacidade para dar tais respostas é uma das principais funções dos anos de Seminário. Tudo o que vos peço insistentemente é isto: Estudai com empenho! Fazei render os anos do estudo! Não vos arrependereis. É certo que muitas vezes as matérias de estudo parecem muito distantes da prática da vida cristã e do serviço pastoral. Mas é completamente errado pôr-se imediatamente e sempre a pergunta pragmática: Poderá isto servir-me no futuro? Terá utilidade prática, pastoral? É que não se trata apenas de aprender as coisas evidentemente úteis, mas de conhecer e compreender a estrutura interna da fé na sua totalidade, de modo que a mesma se torne resposta às questões dos homens, os quais, do ponto de vista exterior, mudam de geração em geração e todavia, no fundo, permanecem os mesmos. Por isso, é importante ultrapassar as questões volúveis do momento para se compreender as questões verdadeiras e próprias e, deste modo, perceber também as respostas como verdadeiras respostas. É importante conhecer a fundo e integralmente a Sagrada Escritura, na sua unidade de Antigo e Novo Testamento: a formação dos textos, a sua peculiaridade literária, a gradual composição dos mesmos até se formar o cânon dos livros sagrados, a unidade dinâmica interior que não se nota à superfície, mas é a única que dá a todos e cada um dos textos o seu pleno significado. É importante conhecer os Padres e os grandes Concílios, onde a Igreja assimilou, reflectindo e acreditando, as afirmações essenciais da Escritura. E poderia continuar assim: aquilo que designamos por dogmática é a compreensão dos diversos conteúdos da fé na sua unidade, mais ainda, na sua derradeira simplicidade, pois cada um dos detalhes, no fim de contas, é apenas explanação da fé no único Deus, que Se manifestou e continua a manifestar-Se a nós. Que é importante conhecer as questões essenciais da teologia moral e da doutrina social católica, não será preciso que vo-lo diga expressamente. Quão importante seja hoje a teologia ecuménica, conhecer as várias comunidade cristãs, é evidente; e o mesmo se diga da necessidade duma orientação fundamental sobre as grandes religiões e, não menos importante, sobre a filosofia: a compreensão daquele indagar e questionar humano ao qual a fé quer dar resposta. Mas aprendei também a compreender e – ouso dizer – a amar o direito canónico na sua necessidade intrínseca e nas formas da sua aplicação prática: uma sociedade sem direito seria uma sociedade desprovida de direitos. O direito é condição do amor. Agora não quero continuar o elenco, mas dizer-vos apenas e uma vez mais: Amai o estudo da teologia e segui-o com diligente sensibilidade para ancorardes a teologia à comunidade viva da Igreja, a qual, com a sua autoridade, não é um pólo oposto à ciência teológica, mas o seu pressuposto. Sem a Igreja que crê, a teologia deixa de ser ela própria e torna-se um conjunto de disciplinas diversas sem unidade interior.

6. Os anos no Seminário devem ser também um tempo de maturação humana. Para o sacerdote, que terá de acompanhar os outros ao longo do caminho da vida e até às portas da morte, é importante que ele mesmo tenha posto em justo equilíbrio coração e intelecto, razão e sentimento, corpo e alma, e que seja humanamente «íntegro». Por isso, a tradição cristã sempre associou às «virtudes teologais» as «virtudes cardeais», derivadas da experiência humana e da filosofia, e também em geral a sã tradição ética da humanidade. Di-lo, de maneira muito clara, Paulo aos Filipenses: «Quanto ao resto, irmãos, tudo o que é verdadeiro, nobre e justo, tudo o que é puro, amável e de boa reputação, tudo o que é virtude e digno de louvor, isto deveis ter no pensamento» (4, 8). Faz parte deste contexto também a integração da sexualidade no conjunto da personalidade. A sexualidade é um dom do Criador, mas também uma função que tem a ver com o desenvolvimento do próprio ser humano. Quando não é integrada na pessoa, a sexualidade torna-se banal e ao mesmo tempo destrutiva. Vemos isto, hoje, em muitos exemplos da nossa sociedade. Recentemente, tivemos de constatar com grande mágoa que sacerdotes desfiguraram o seu ministério, abusando sexualmente de crianças e adolescentes. Em vez de levar as pessoas a uma humanidade madura e servir-lhes de exemplo, com os seus abusos provocaram devastações, pelas quais sentimos profunda pena e desgosto. Por causa de tudo isto, pode ter-se levantado em muitos, e talvez mesmo em vós próprios, esta questão: se é bom fazer-se sacerdote, se o caminho do celibato é sensato como vida humana. Mas o abuso, que há que reprovar profundamente, não pode desacreditar a missão sacerdotal, que permanece grande e pura. Graças a Deus, todos conhecemos sacerdotes convincentes, plasmados pela sua fé, que testemunham que, neste estado e precisamente na vida celibatária, é possível chegar a uma humanidade autêntica, pura e madura. Entretanto o sucedido deve tornar-nos mais vigilantes e solícitos, levando precisamente a interrogarmo-nos cuidadosamente a nós mesmos diante de Deus ao longo do caminho rumo ao sacerdócio, para compreender se este constitui a sua vontade para mim. É função dos padres confessores e dos vossos superiores acompanhar-vos e ajudar-vos neste percurso de discernimento. É um elemento essencial do vosso caminho praticar as virtudes humanas fundamentais, mantendo o olhar fixo em Deus que Se manifestou em Cristo, e deixar-se incessantemente purificar por Ele.

7. Hoje os princípios da vocação sacerdotal são mais variados e distintos do que nos anos passados. Muitas vezes a decisão para o sacerdócio desponta nas experiências de uma profissão secular já assumida. Frequentemente cresce nas comunidades, especialmente nos movimentos, que favorecem um encontro comunitário com Cristo e a sua Igreja, uma experiência espiritual e a alegria no serviço da fé. A decisão amadurece também em encontros muito pessoais com a grandeza e a miséria do ser humano. Deste modo os candidatos ao sacerdócio vivem muitas vezes em continentes espirituais completamente diversos; poderá ser difícil reconhecer os elementos comuns do futuro mandato e do seu itinerário espiritual. Por isso mesmo, o Seminário é importante como comunidade em caminho que está acima das várias formas de espiritualidade. Os movimentos são uma realidade magnífica; sabeis quanto os aprecio e amo como dom do Espírito Santo à Igreja. Mas devem ser avaliados segundo o modo como todos se abrem à realidade católica comum, à vida da única e comum Igreja de Cristo que permanece uma só em toda a sua variedade. O Seminário é o período em que aprendeis um com o outro e um do outro. Na convivência, por vezes talvez difícil, deveis aprender a generosidade e a tolerância não só suportando-vos mutuamente, mas também enriquecendo-vos um ao outro, de modo que cada um possa contribuir com os seus dotes peculiares para o conjunto, enquanto todos servem a mesma Igreja, o mesmo Senhor. Esta escola da tolerância, antes do aceitar-se e compreender-se na unidade do Corpo de Cristo, faz parte dos elementos importantes dos anos de Seminário.

Queridos seminaristas! Com estas linhas, quis mostrar-vos quanto penso em vós precisamente nestes tempos difíceis e quanto estou unido convosco na oração. Rezai também por mim, para que possa desempenhar bem o meu serviço, enquanto o Senhor quiser. Confio o vosso caminho de preparação para o sacerdócio à protecção materna de Maria Santíssima, cuja casa foi escola de bem e de graça. A todos vos abençoe Deus omnipotente Pai, Filho e Espírito Santo.


Vaticano, 18 de Outubro – Festa de São Lucas, Evangelista – do ano 2010.

BENEDICTUS PP XVI